Artigos para janeiro, 2011

Mexendo nos ovos mexidos

segunda-feira, janeiro 31st, 2011

“Adivinhação lusitana:

-O que é o que é: branquinho, branquinho, que a galinha pôs?

-Ou é mastro de navio ou cabo de sovelão”!

 

Dizem que a pata bota um ovo grande e não faz barulho, e a galinha bota um ovinho e apronta o maior berreiro. Na cartilha de alfabetização tinha uma frase assim: “Eva viu o ovo”, para ensinar a letra “v”. Um prato cheio de arroz com um ovo frito no topo é conhecido como “Tonico e Tinoco”, em homenagem a dupla caipira. A farofa de ovo é o primeiro prato que se aprende fazer, e a gemada, por sua vez, é feita com gema batida com açúcar até perder o cheiro (que é dado pela película que separa a gema da clara), e misturada com leite. Tem fama de ser tão forte que levanta defunto.

 

Muitas receitas de biscoito levam mais de uma dúzia de ovo, o rei da culinária. Sim, o ovo melhora qualquer prato, e o famoso “mexidão” com a sobra do almoço e um ovo quebrado dentro faz o gosto de muitos. “Oh menina, mata um ovo e traz aqui pra mim!”, alguém faz graça.

 

Antigamente o tratamento de úlcera no estômago era feito à base de ovo quente e leite. De manhã, meu tio ulceroso encontrava a mesa posta com esses dois alimentos. Em menina já amava ovo cozido em água por três minutos e com a gema ainda mole. Ficava olhando meu tio colocar o ovo quente dentro do guardanapo, e segurando-o firme, quebrar um dos lados da casca, e depois tirar uma tampinha de clara cozida, colocar uma pitada de sal, e mergulhar a colherzinha no líquido maravilhoso e dourado da gema.

 

A minha boca se enchia d’água. Eu pedia, fazendo o gesto com a mão sobre o braço, imitando o pano caindo nele: “eu quero um ovo de caldo, assim”. E antes que a inveja me matasse, a minha avó corria e cozinhava outro ovo.

 

Para mim, o alimento mais gostoso do mundo é murici, a frutinha amarela do cerrado. Depois é ovo frito na manteiga e em seguida o queijo prato. Murici eu procuro no mercado no verão, e os demais, esqueci como é o sabor. São nove anos sem prová-los. O ovo, especialmente a sua gema, foi jogado à categoria de alimento maldito, poucos anos após os pediatras indicarem um ovo ao dia para as crianças crescerem fortes.

 

A associação do colesterol com infartos e AVC - Acidente Vascular Cerebral- (derrames) fez o ovo, rico neste nutriente, ser banido do cardápio dos cardiopatas, e restritos a dois por semana para os sadios, inclusive os misturados nas preparações (receitas).

 

O nome “colesterine” foi dado à gordura animal em 1815 pelo francês Michel Chevreul, e depois com a descoberta que a substância era um álcool foi acrescentada a terminação “ol” de todos os alcoóis.

 

Já li em algum lugar que uma gema de ovo tinha colesterol para quinze dias, mas essa informação é falsa. O colesterol é uma gordura vital que entra na constituição da vitamina D, ácidos biliares, cortisol, hormônios sexuais e membranas celulares. O fígado é um laboratório produtor de colesterol, 80% do necessário, e a outra parte vêm da alimentação. Só existe no reino animal, e precisamos de 300 mg por dia, sendo que um ovo de galinha, que pesa 50 g em média, tem 200/220 mg de colesterol.

 

O resgate do ovo vem de 1999, quando foi publicado um trabalho mostrando que não houve aumento da incidência de doenças cardiovasculares em pessoas que fizeram consumo de até um ovo por dia. O valor nutricional do ovo de granja e caipira é igual, assim como a concentração de colesterol e calorias. A cor da casca reflete a raça da galinha, e quanto à preparação, o ovo frito é mais calórico.

 

Leiam a descrição de Veja para o ovo, alçado ao patamar de iguaria: “uma gema caipira, cozida por um minuto em solução de água e açúcar de modo a ganhar uma finíssima película, é servida sobre queijo de cabra gratinado e purê de batatas”, e mais adiante outra receita “um ovo pochê de gema molinha, do tipo que transborda ao primeiro toque”. Alguém resiste? Acho que apenas eu.

Além da gordura, o ovo tem substâncias antioxidantes, vitaminas e, surpresa, a gema tem mais proteína que a clara. O resgate do ovo, um alimento barato, pode até esconder interesses econômicos, mas o seu veto, tornando-se mais ameno, denota maturidade científica. Em todas as áreas da ciência há o sobe e desce das verdades, notadamente na nutrição. Entre outras coisas, o fim do pecado mortal de se ingerir ovo é um alento, e podem acreditar, não é fácil derrubar paradigmas de cinco décadas. Não, não é!

 

Mara Narciso é médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade” – 29 de janeiro de 2011.

Depoimento de Antônio Rocha

segunda-feira, janeiro 31st, 2011

Boa tarde, tudo bem?

Meu nome é Antônio Rocha, sou diabético há mais de 40 anos, fiquei diabético com 1 ano e 2 meses de idade. Pratico atividade física, hoje diariamente, por cerca de 1 h 30 min. Por um acaso até hoje não desenvolvi uma lesão decorrente do diabetes, não tenho um único micro aneurisma na retina, tenho ótima condição renal, minha eletroneuromiografia de membros superiores e inferiores feita em final de 2010 pelo Sérgio Szklarz tem como conclusão: normal.

 

Disse por um acaso porque à época em que fiquei diabético se usava NPH e só em casos extremos se usava a Regular. Não existia glicosímetro, nem Lantus, nem Levemir, nem insulinas ultra-rápidas, os testes eram feitos com base na urina que era colocado em tubo de ensaio com um “veneno” intitulado de reagente de Benedict. Meu escore de cálcio coronariano é zero. Não tenho obstruções nas carótidas nem nas vertebrais (exame feito com Luciano Belém no Pró cardíaco).

 

Minha condição cardiorrespiratória em 2010 foi avaliada na esteira Pró cardíaco pelo Luciano Belém e pelo Fernando César, resultado: excelente. Minha freqüência cardíaca em repouso é de 64, aproximadamente. Meu perfil lipídico é de fazer inveja a quem não é diabético, 33 de triglicérides, 46 de LDL e 114 de HDL. Vale à pena fazer atividade física intensa e ingerir gordura saturada de forma moderada. Não fumo, não bebe, não excedo na alimentação, evito excesso de CHO e não como doces dietéticos, a uma, porque o gosto é medonho, a duas, porque para mim acarreta diarréia ainda que usado de forma comedida. Não uso nem refrigerante zero.

 

Quando eu tinha mais ou menos 7 ou 8 anos lançaram um refrigerante de nome TAB, que provavelmente por interesses comerciais foi logo retirado do mercado. E eu me acostumei a não fazer uso de refrigerante. Hoje os refrigerantes ditos light, diet e zero não mais exercem qualquer atração para mim. Vivi anos da minha vida sem eles e não será hoje que farei uso de tal produto. Desde o surgimento dos glicosímetros no Brasil, por volta de 1985, passei a fazer um controle super estrito que à época em que desenvolvi a doença que me levou à internação no Hospital dos Servidores do Estado em razão de cetoacidose não era possível.

 

A internação foi determinada pelo inolvidável Professor José Procópio Rodrigues do Valle. Após a comercialização no Brasil da 1ª insulina ultra-rápida (leia-se: Humalog) passei a usá-la constantemente. A essa época já fazia múltiplas doses de insulina NPH associada a várias doses de Humalog. Como sou diabético há muitos anos e à época em que abri o processo não tinha praticamente nenhum recurso como existe hoje, v.g., sistema de infusão contínua de insulina, que apenas faz uso da ultra-rápida (seja, Apidra, NovoRapid ou Humalog) a título de basal administrada de forma super fracionada e bolus de refeição e correção, hoje procuro fazer um controle super rigoroso, faço glicada de 5,6% e frutosamina de 2.83 mmol/L.

 

Confesso que hoje fico procurando exames e mais exames a fim de checar minha condição. Quando fiquei diabético meu primeiro endócrino foi o Francisco Arduino, escolha é claro do meu pai, pois quem tem 1 ano e pouco não escolhe médico, depois por motivos que nunca indaguei do meu pai o Francisco Arduíno foi substituído pelo Procópio do Valle com quem fiquei até quando ele teve condições de exercer a medicina. Meu médico atual também já está idoso, mas ainda exerce a medicina e por isso aqui deixarei de declinar seu nome, embora tenha por ele um grande respeito.

 

Sou imensamente grato aos três grandes endócrinos de cuidaram de mim e numa época em que eu era uma “avezinha” rara me mostraram que um homem não vale pelas pernas, mas pela cabeça. Hoje se escuta a torta e a direito que fulano é diabético, quando entrei para escola essa doença não era badalada, era algo quase que inusitado. Não sei qual a condição dos meninos, hoje, homens maduros que eu conheci no Hospital dos Servidores do Estado, mas acredito que a grande maioria tenha perdido a visão, faça diálise ou hemodiálise, tenha amputado algum dedo ou mesmo uma perna.

Não sei o quê aconteceu com aqueles meninos. Decerto que muitos já faleceram. Eu acho que contei com bons médicos, apesar de poucos recursos disponíveis, contei com minha disciplina, contei com a participação do meu pai, que me proporcionou condições de me tornar engenheiro. Hoje temos Internet etc. etc., a relação médico-paciente mudou muito, não sei se para melhor ou para pior, mas que mudou, mudou. Hoje, paciente “dá pitaco”, pede esse ou aquele exame, discorda do médico e na minha opinião até desrespeita os profissionais de saúde, da mesma forma que os pais hoje são desrespeitados.

 

Outro dia fiz um Doppler Collor de membros inferiores arterial e o médico que executou disse o exame disse o seguinte: “pelo tempo de diabetes que você tem eu espera uma obstrução generalizada, no entanto, não há uma única obstrução, parabéns.” Acho que a sorte sempre esteve ao meu lado, apesar do meu empenho que é algo que foge ao padrão. Quando cheguei em casa observei que o exame supracitado, salvo melhor juízo, não examina vasos “pequeninos”.

 

Consta das observações gerais do exame o seguinte: “avaliamos bem o sistema arterial desde a região inguinal até o dorso do pé”. Fala em artéria femoral, artéria poplítea, tronco tíbio-fibular, artéria tibial. Indago: o exame que fiz não pegou vasos finos, bem pequeninos, que, salvo engano, é onde se localizam os problemas de “obstruções” dos diabéticos.

 

Estou certo ou errado? Há algum exame que tenha como avaliar os vasos que ora chamo de superfinos? Abraço, Antonio Rocha

O respeito à vida é o bem maior

sexta-feira, janeiro 21st, 2011

As vidas frágeis de pequenos animais - um filhote de passarinho que caiu do ninho, por exemplo-, são do tamanho da vida de qualquer um, pois são únicas. Há quem proteja toda a vida animal e vegetal, e o que as cercam. Acham que o respeito à vida deva ser geral e irrestrito e procuram praticá-lo.

 

Uma criança recém-nascida sensibiliza as pessoas, que soltam os músculos faciais, quase sorriem ao mirar a face de quem acabou de vir ao mundo. O pé e a nuca de um neném são tão graciosos, e ainda assim há quem agrida e até mate um bebê. Quando a criança não é perfeita, ainda maior é o descaso, o que agrava o problema. O gesto vil de espancar um lactente já foi visto por aí. Sente-se asco e pede-se que o agressor seja exemplarmente punido.

 

Uma família quer adotar uma criança deficiente, de cinco anos, portadora de paralisia cerebral, com uma flacidez muscular grave, que está num abrigo. Foi retirada da família biológica devido aos maus-tratos, que agravaram seus já intensos problemas neurológicos. A mãe adotiva conta que todos os seus parentes foram contra a adoção, pois iria desestruturar a nova família com seus problemas e exigência de eternos cuidados.

 

O pai adotivo fala que, ao ver o menino, tão traumatizado e chorando, o colocou no colo e afagou a sua cabeça. Enquanto a criança se calou com o gesto carinhoso, o pai começou a chorar. Estava decidido, levaria o menino para seu novo lar. Assim foi feito, e agora ele já se recupera um pouco do que perdeu com tratamentos caros e diversificados, como a Equoterapia.

 

O rapazinho de 14 anos estava no CTI, em Belo Horizonte. Era vítima da Síndrome de Guillain-Barré, destruição da mielina que envolve os nervos e com isso tinha perdido os movimentos dos quatro membros e tórax, e respirava com a ajuda do respirador. Na época e local não havia broncoscópio flexível, apenas o rígido que não permitia retirar o tampão de secreção que o impedia de respirar melhor.

 

De ambulância, cercado de cuidados, com o médico ao lado, foi levado a outro hospital para ser submetido a uma broncoscopia sob anestesia geral. No procedimento apresentou uma parada cardiorrespiratória. Após ressuscitá-lo, o anestesista explicou com desdém: mas também ele é tetraplégico!

 

“Eu respeito a vida” é mais uma das expressões que perderam o sentido. Não acontece nem respeito ao vivo. A arrogância foi institucionalizada. Muitos se julgam melhores do que os outros. É rotina ver pessoas desdenhando outra por ela ter um defeito físico, ser gorda, ser menos jovem, menos bonita, menos rica, menos aquinhoada de conhecimentos. E quem pratica esse gesto se sente melhor que os demais e algumas vezes, dentro da sua grande capacidade, são incapazes de avaliar como se comporta.

 

Algumas vidas humanas são desprezadas nos serviços de emergência por vários motivos. O descaso machuca as almas mais sensíveis. É como se uma vida fosse mais importante do que a outra. Assim, para fazer valer os seus direitos, as pessoas esclarecidas gritam pelo que deve ser feito: preferência no atendimento de acordo com a gravidade do caso.

 

Enquanto há quem não cuide bem dos pais ou dos filhos, agindo de forma vil ao cometer o crime de abandono de incapaz, há quem ame um estranho a ponto de se emocionar. Gente pode ser assim também.

 

Ser a favor do direito ao aborto, ou a favor da eutanásia quando há desejo expresso do doente, pode ser uma cortina sobre o real motivo: comodismo? Medo do desconforto? Não seria melhor a prática do sexo responsável e da medicina preventiva?

 

Há quem deixe no automático a frase de que é a favor da vida, mas não pratica o que diz. Não cuida bem da vida dos que estão sob sua responsabilidade e nem da sua própria vida. Não segue os preceitos de boa higiene, faz loucuras, come errado, tem vícios, não faz as prevenções, e se nega a seguir tratamentos consagrados.

 

Caso alguém receba orientação médica e diga friamente que não obedecerá nada daquilo, quem acredita que essa pessoa respeitará a vida do outro?

 

Mara Narciso

Médica, Jornalista e Autora do livro “Segurando a Hiperatividade”