Artigos para setembro, 2010

Leonid Ivanovich Rogozov, exemplo de determinação e auto-controle

terça-feira, setembro 28th, 2010

Leonid Ivanovich Rogozov

O navio Ob, com seus 6 membros, partia de Leningrado em direção à Antártica em 5 de novembro de 1960. A missão era construir uma nova base polar de pesquisas e passar pelo terrível inverno antártico. Após 9 semanas, a base Novolazarevskaya estava pronta e a tempo para a chegada do inverno. O mar congelara a sua volta e o navio já havia partido e não voltaria tão cedo. Contato com o mundo externo não era mais possível. Através do longo inverno os 12 habitantes de Novolazarevskaya dependeriam somente de si. Um dos membros da expedição era o jovem cirurgião de 27 anos Leonid Ivanovich Rogozov.

 

29 de Abril de 1961

 

Após várias semanas se sentido mal, Rogozov logo percebeu em si sinais de fraqueza, mal-estar, náusea e, posteriormente, dor em região superior de seu abdome que mudou, depois, para o quadrante inferior direito. Sua temperatura subiu para 37,5 ºC. Rogozov escreveu em seu diário: “Aparentemente estou com apendicite. Estou disfarçando, até sorrio. Porque preocupar meus amigos? Quem poderia ajudar?” Como cirurgião, Rogozov não teve dificuldades para diagnosticar apendicite aguda. Porém, por ironia do destino, ele sabia que só sobreviveria se fosse submetido à operação. Era o único médico no local, e contato com o mundo externo estava fora de questão uma vez que o inverno já se instalara sobre a base.

 

30 de Abril de 1961

 

Todos os tratamentos paliativos foram usados (antibióticos, resfriamento da área), mas seu estado continua piorando: sua temperatura subiu, e os vômitos ficaram mais frequentes. “Eu não consegui dormir ontem a noite. Dói demais. Continua sem sinais de perfuração iminente, mas um sentimento opressivo de que algo ruim está por vir paira sobre mim… É isso…Eu tenho que pensar na única possibilidade de sair dessa: operar em mim…é praticamente impossível…mas eu não posso simplesmente cruzar os braços e desistir.” “18:30. Eu nunca me senti tão mal em minha vida. O prédio está tremendo como um pequeno brinquedo na tempestade. O pessoal já descobriu. Eles continuam tentando me acalmar. Estou chateado comigo - estraguei o feriado de todos. Agora estão todos correndo por aí, preparando a autoclave. Temos de esterilizar a cama, pois vamos operar.” “20:30. Estou piorando. Falei para o pessoal. Agora temos de começar a tirar tudo que não precisamos da sala.”

 

 

Preparação para a operação

 

Seguindo as instruções de Rogozov, os membros da equipe improvisaram uma sala de cirurgia. Retiraram tudo da sala de Rogozov deixando apenas sua cama, duas mesas e uma luminária. Os aerologistas Fedor Kabot e Robert Pyzhov inundaram a sala com luz ultravioleta e esterilizaram a cama e os instrumentos. Além de Rogozov, o metereologista Alexandr Artemev, o mecanico Zinovy Teplinsky, e diretor da estação, Vladislav Gerbovich, foram submetidos à lavação anti-séptica. Rogozov explicou como a operação iria proceder e lhes designou tarefas: Artemev deveria lhe passar os instrumentos; Teplinsky seguraria o espelho e ajustaria a luz; Gerbovich estaria na reserva caso alguém passasse mal. No caso de Rogozov perder a consciência, ele instruiu sua equipe de como injetar-lhe drogas com uma seringa que havia preparado e de como realizar ventilação artificial. Então ele lavou as mãos de Artemev e Teplinsky e colocou-lhes luvas cirúrgicas. Quando tudo estava preparado, Rogozov se lavou e posicionou-se. Ele escolheu uma posição semi-inclinada, limpou a área a ser aberta e, antecipando a necessidade que teria do senso tátil para se guiar, decidiu trabalhar sem luvas.

 

 

A OPERAÇÃO

 

Começou as 2:00 local. Rogozov infiltrou as camadas da parede abdominal com 20 ml de 0.5% de procaína, usando diversas injeções. Após 15 minutos ele fez uma incisão de 10-12 cm. A visibilidade na profundeza da cavidade não era ideal, em alguns momentos ele teve de elevar a cabeça para obter uma vista melhor, ou usar o espelho, nas a maior parte do trabalho foi feito somente por toque. Depois de 30-40 minutos, Rogozov começou a fazer pequenas pausas devido à fraqueza geral e sensação de vertigem. Finalmente ele removeu o apêndice severamente afetado. Ele aplicou antibióticos na cavidade abdominal e fechou a incisão. A operação levou cerca de 1 hora e 45  minutos. Em certo momento, Gerbovich chamou Yuri Vereshchagin para fotografar o evento. Gerbovich escreveu em seu diário aquela noite. “Quando Rogozov fez a incisão e estava manipulando seus órgãos internos, assim que removeu o apêndice seu intestino roncou. Isso foi absolutamente nada agradável para nós, fez com que quisesse desviar o olhar, mas mantive minha cabeça e olhar firmes. Rogozov manteve-se calmo e focado no trabalho, porém suava muito em sua testa e frequentemente pedia à Teplinsky para seca-la.”

 Leonid Ivanovich Rogozov

 

Após a operação

 

Terminado, Rogozov mostrou a seus assistentes como lavar e guardar os instrumentos e outros materiais. Então tomou pílulas para dormir e descansou. No outro dia sua temperatura era de 38,1 ºC, ele descreveu sua condição como “moderadamente ruim”, mas no geral se sentia melhor. Ele continuou a tomar antibióticos. Depois de quatro dias suas funções digestivas voltaram ao normal e os sinais de peritonite local desapareceram. Cinco dias depois sua temperatura era normal e ele removeu as suturas. “Dentro de duas semanas já podia realizar suas tarefas normalmente e voltou a escrever em seu diário.”

 

8 de Maio de 1961

 

“Não me permiti em momento algum a pensar em outra coisa se não minha tarefa a realizar. Cerrei os dentes e fui frio. No caso de perder a consciência eu dei uma seringa a Sasha Artemev e mostrei-lhe como me dar uma injeção. Expliquei a Zinovy Teplinsky como segurar o espelho. Meus pobres assistentes! No ultimo minuto olhei para eles: eles lá em seus aventais cirúrgicos brancos, mais brancos que eles mesmos. Eu também estava com medo. Mas quando peguei a agulha com novocaina e me dei à primeira injeção, de alguma forma eu entrei em modo automático, e desse ponto em diante não percebi nada mais.” “Trabalhei sem luvas. Era difícil de enxergar. O espelho ajudou, mas também atrapalhou - afinal, mostrava tudo ao contrário. Trabalhei mais pelo toque. O sangramento foi bastante grande, mas eu mantive a calma. Ao abrir o peritônio, eu atingi o ceco e tive de suturá-lo. De repente passou pela minha cabeça: há mais lesões por aqui e eu não percebi… Fui ficando cada vez mais fraco, minha cabeça começou a rodar. A cada 4-5 minutos eu descansava por 20-25 segundos. Finalmente, aqui está o apêndice maldito. Com horror eu percebi a mancha negra em sua base. Significava que apenas um dia a mais ele teria se rompido e…” “No pior momento da remoção do apêndice meu coração disparou e eu parei e pensei: minhas mãos parecem borracha. Bom, eu pensei isso não vai terminar bem. E tudo que me restou foi remover o apêndice…”.

“E então eu percebi que, praticamente, eu já estava a salvo.”

 

 

Deixando a Antártica

 

Mais de um ano depois a equipe deixou Novolazarevskaya e em 29 de Maio de 1962 seu navio atracava no porto de Leningrado. No dia seguinte Rogozov retornava a seu trabalho na clínica. Ele trabalhou e lecionou  no Departamento de Cirurgia Geral do Primeiro Instituto Médico de Leningrado. Ele nunca mais voltou a Antártica e morreu em São Petesburgo, anterior Leningrado, em 21 de setembro de 2000.

 

 

O limite da capacidade humana

 

A auto-operação de Rogozov foi provavelmente o primeiro ato ocorrido fora de uma estrutura hospitalar em um lugar deserto sem nenhuma possibilidade de ajuda externa, e sem a presença de qualquer outro profissional médico a sua volta. Permanece como um exemplo de determinação e da força de vontade para viver do ser humano. Em seus últimos anos Rogozov rejeitou todas as glórias de seu feito. Quando perguntado sobre o ocorrido ele simplesmente respondia com um sorriso no rosto: “Um trabalho como outro qualquer, uma vida como outra qualquer”.

 

Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia, Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

 

Artigo publicado no British Medical Journal:

“Auto-appendectomy in the Antarctic: case report”

-Vladislav Rogozov, Neil Bermel.

www.bmj.com/cgi/content/full/339/dec15_1/b4965  

PS: Vladislav Rogozov é filho de Leonid Rogozov

Boa é bom no feminino

segunda-feira, setembro 27th, 2010

“O tempo passa, o tempo voa, e a Poupança Bamerindus continua numa boa…”.

 

O uso vai mudando o significado de alguns conceitos, e mal percebemos. Houve um tempo em que boa cozinheira era aquela de forno e fogão. Boa mesa era mesa farta e variada. O modo de vida permitia comer e andar com natural manutenção do peso. Hoje esse tipo de mesa e cozinheira não traz felicidade. Melhor não se aproximar das tentações da mesa. Vejamos o que é comida boa. O sabor, e a quantidade que sacia eram os itens mais importantes. Hoje invocamos a higiene, a aparência, os poderes nutritivos, e o adjetivo saudável. Não seria hora de chamar a boa comida de alimento inteligente?

 

Havia aquele que era um bom garfo, ou seja, comia e repetia. Mesmo sendo o terror dos rodízios, fazia graça comendo exageradamente, e acabava sendo o rei da mesa, atraindo todas as atenções, e na reprise ingeria mais. Era o via-vira do garfo e faca.

 

Alguém tímido chega numa festa onde um grupo ruidoso mal o vê chegar. Murmura pelos cantos um cumprimento de boa noite para servir de escudo, mas é inútil. Isso não garante e nem impede que a noite seja realmente boa. Quando a chegada é nesse estilo, a saída precisa ser à francesa. Timidez não é coisa boa.

 

Uma flor tem por nome boa-noite. É branca e tem um cheiro ativo que inunda o jardim. Muitos acham o odor agradável, lembrando a infância, tempo em que era possível caminhar à noite e sentir esses perfumes.

 

Uma droga colocada sorrateiramente numa bebida inocente causa grandes perdas de dinheiro e até da vida. O nome do artefato: boa noite Cinderela.

 

Fotos de cinquenta anos atrás nos mostram uma interessante escassez de pessoas gordas. E hoje, comparando os soldados americanos da Guerra do Vietnã com os da Guerra do Iraque, além do aparato tecnológico, nos chamam a atenção pelo menos trinta quilos corporais a mais que os soldados atuais têm. Aí entra o pedido de atenção a boa forma.

 

O locutor de rádio diz que o sol está brilhando, não há nuvens, o termômetro marca 35 graus, e não há previsão de chuva. E termina afirmando: tempo bom e temperatura em elevação. Ficamos sabendo que tempo bom é assim.

 

Havia em Montes Claros um óleo de cozinha chamado Dona-Boa, mas seu nome foi vetado há meio século, pois descobriram que havia outro óleo com o mesmo nome, então mudaram a marca para Boa-zinha.

 

Ainda nos nomes comerciais, a Q-Boa é uma água sanitária de seis décadas, líder de mercado e que está em fase de revitalização. Outro produto que trombeteia ter mil e uma utilidades é o Bom-bril. E o que dizer do chocolate que tem a palavra bom duas vezes no nome: bom-bom?

 

Bom-bocado é um doce que chegou a dar nome a um restaurante concorrido aos domingos. Foi um dos primeiros self-services da cidade, com molhos adocicados, tentando ser o que não era: um popular sofisticado.

 

Não conheço loja onde se venda conselhos, mas sempre ouço alguém metendo o bedelho e dando seu bom-conselho de graça, porém dizendo que melhor seria vendê-lo. Dá pra imaginar alguém implorando: compro um bom-conselho? Não podemos nos esquecer das consultorias, que de forma competente ou não, cobram caro pelas suas preciosas orientações.

 

Negro bom e o bom selvagem se referem a pessoas dóceis, domesticadas, assim nomeadas pela classe que manda. Bom, nesse caso, significa conformado, e essa bondade serve a quem deseja a obediência deles.

 

A mudança de lugar do adjetivo em relação ao substantivo muda o significado. Vejamos: vida boa e boa vida. A primeira gera inveja e a segunda também, mas por motivos diversos. Quando vemos alguém num momento de descanso, em total e completo relaxamento físico e mental, pensamos: “Esse leva uma vida boa!” Para alguém que é publicamente improdutivo, mas que tem uma existência de rei é possível que seja invejado, não pelo ócio, mas sim pelo conforto que desfruta.

 

Nessa linha, pode-se ir adiante, passando do abstrato ao concreto: boa mulher e mulher boa. A primeira refere-se a virtudes invisíveis e a segunda refere-se unicamente a qualidades palpáveis.

 

Mara Narciso

Jornalista e Autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.