Devemos Continuar Usando o IMC (BMI) como um Marcador de Risco de Doença Cardiovascular?

Dr. Reginaldo Albuquerque

Um estudo, publicado no número de 28 de agosto da revista Lancet, questiona a relação entre o IMC (ôndice de Massa Corporal) e riscos cardiovasculares. Este trabalho, de autoria de pesquisadores da Mayo Cllinic, Rochester, Estados Unidos, compreendeu uma meta-análise de 40 estudos envolvendo 250.152 pacientes com doença arterial coronária. Os desfechos (outcomes) estudados foram os aparecimentos de eventos cardiovasculares e mortalidade.

Os dados foram conflitantes, ou mesmo inesperados, porque mostraram que os pacientes com baixo IMC e doença cardiovascular prévia, tinham maior incidência de morte e de acidentes coronários. Pacientes com sobrepeso tinham melhores taxas de sobrevivência e menor número de acidentes cardiovasculares.

A análise estatística demonstrou que a relação entre IMC, obesidade e riscos cardíacos só eram consistentes nos casos de pessoas com obesidade mórbida que tinham algum tipo de disfunção cardíaca prévia. Nos demais casos não houve associação. Uma das explicações para isso é que o IMC não diferencia, por exemplo, gorduras e fibras musculares.

A respeito destes dados, um dos autores, Dr. Francisco Lopez-Jimenez declarou: “em vez de provar que a obesidade é sem risco, o que ficou demonstrado com os nossos dados, é que precisamos procurar métodos alternativos para caracterizar os indivíduos que tem realmente excesso de gordura.”

E concluiu: “o IMC pode está aumentado por causa do excesso de tecido muscular, que pode ser decorrente de uma maior atividade física recomendada nos cardíacos”.

A pesquisa de meta-análise compreendeu dados que foram coletados entre 1980 e 1990 e a média de seguimento dos pacientes foi de 3,8 anos.

No mesmo número do Lancet, a Dra Maria G.Franzosi, do Instituto Maria Negri de Milão, Itália, pergunta: “será que o debate entre IMC e o mortalidade se encerrou?”. E ela mesma responde: “este estudo não traz novidades, mas podemos dele extrair boas informações. Uma delas, é que o IMC deve ser deixado de lado, como um marcador clínico e epidemiológico de doença cardiovascular, tanto na prevenção primária como secundária, pois o IMC não é uma boa medida da gordura visceral, o fator chave determinante das alterações metabólicas.”

Um outro estudo, realizado em 52 países (INTERHEART), tem procurado determinar que outras medidas são mais eficazes do que o IMC na determinação da gordura visceral e na sua relação com doenças cardíacas. Os indicadores estudados são: cintura abdominal, relação cintura/quadril e medida do quadril.

Em todos os grupos étnicos estudados, a razão cintura/quadril foi o melhor preditor de infarto do miocárdio e esta relação é três vezes melhor do que o IMC.

No entanto, um artigo publicado no NEJM, em 24 de agosto, defende o valor do IMC na predição de mortalidade e de eventos cardiovasculares.

O Dr. Josivan Lima, da editoria do site, acredita que este trabalho “tem mais valor estatístico porque estudando duas populações diferentes, chegou a conclusões semelhantes: que o BMI é bom (já que até sobrepeso aumentou risco de MORTE, e não só de IAM como avaliado no Intraheart por exemplo). Acho a relação cintura/altura um indicador interessante que não usamos no dia-a-dia”.

Referências
Deixamos de fornecer os links do Lancet por não serem de acesso livre.

Association of bodyweight with total mortality and with cardiovascular events in coronary artery disease: a systematic review of cohort studies
Romero-Corral A, Montori VM, Somers VK, Korinek J, Thomas RJ, Allison TG, Mookadam F, Lopez-Jimenez F
The Lancet - Vol. 368, Issue 9536, 19 August 2006, Pages 666-678

Should we continue to use BMI as a cardiovascular risk factor ?
Franzosi, MG. The Lancet 2006;368:624-625

Obesity and the risk of myocardial infarction in 27⺺000 participants from 52 countries: a case-control study.
Yusuf S, Hawken S, ôunpuu S, Bautista L, Franzosi MG, Commerford P, Lang CC, Rumboldt Z, Onen CL, Lisheng L, Tanomsup S, Wangai Jr P, Razak F, Sharma AM, Anand SS, on behalf of the INTERHEART Study Investigators
The Lancet - Vol. 366, Issue 9497, 05 November 2005, Pages 1640-1649

O artigo do NEJM pode ser acessado no no link abaixo. O título do trabalho é:
Overweight, Obesity, and the Risk of Death among Persons 50 to 71 Years Old

Saiba mais em
htpp://content.nejm.org/cgi/content/short/355/8/763…

 

14 respostas to “Devemos Continuar Usando o IMC (BMI) como um Marcador de Risco de Doença Cardiovascular?”

  1. Celeste Vigiano Says:

    Tudo bem? é parece que o

    óbvio tem que ser comprovado. Há muito sabemos que o IMC é

    apenas mais um parâmetro na avaliação nutricional e que não

    nos dá a proporção de massas corporais. Um

    abraço.

    Celeste

  2. Rosilda de Mendonça Vaz Says:

    Diante de tantas controvérsias fica

    difícil excluir este ou aquele indicador.Muitos trabalhos têm demonstrado o

    valor da medida da cintura com indicador da presença de gordura visceral.

    Também temos visto os falsos magros ” IMC normal “ com

    cintura elevada. Temos que ter bom senso e considerar todos os parâmetros que

    possam aumentar o risco de DCV.Concordo com o prof Bernardo

    Léo.

    Rosilda de Mendonça Vaz

  3. Antonio Roberto Says:

    Prezado Senhor,

    Realmente

    está cada vez mais difícil fazer Endocrinologia (ou Medicina como um

    todo). Acho que nossa função é prevenir doenças e tentar

    salvar vidas.

    O risco de algumas pessoas leigas interpretarem erroneamente os

    dados apresentados não é pequeno. O problema da obesidade mundial e

    de suas co-morbidades não pode ser desprezado.

    O IMC ainda é o

    índice mais facilmente avaliado em quase todos os serviços

    médicos, com alguns calculando o índice cintura-quadril para melhor

    acuidade. Se formos desprezá-lo por base em um estudo, não

    considerando os outros, corremos sério risco de considerar pacientes de risco

    como normais, ou ainda de tentar usar outros parâmetros não habituais na

    prática diária da maior parte da população

    médica.

    Atenciosamente,
    Antonio Roberto

  4. Alberto Ramos Says:

    Meu caro amigo

    Há algum

    tempo que sou crítico da simples medida do IMC. Em sala de aula tenho citado

    como exemplo o de Myke Tyson. Em uma de suas lutas, quando estava no auge (veja

    quanto tempo faz), ele que mede cerca de 180 cm tinha o peso de quase 100 kg o que

    dá um IMC aproximado de 31. Alguém iria dizer ao brutamontes que ele

    era obeso? Em primeiro lugar porque não era. Em segundo porque o mesmo era

    (é?) um tanto esquentado. Poderia reagir.

    Desta forma, na minha

    prática clínica eu tenho dado mais atenção ‘a

    relação cintura-quadril. Quando saíram os estudos relacionando

    apenas a cintura abdominal com o risco cardiovascular eu expressei a necessidade de

    adaptação uma vez que a nossa constituição é

    diferente da dos caucasianos.

    Mesmo atualmente, com as

    adaptações já feitas, tenho notado uma expressiva parcela da

    população que tem cintura abdominal normal e relação

    cintura-quadril alterada mostrando a necessidade de haver outra

    adaptação, desta feita regional, para a medida da cintura abdominal.

    Esta adaptação se faz necessária porque é muito mais

    factível a medida apenas da cintura do que cintura e quadril. Estou fazendo um

    levantamento de minhas pacientes para descobrir qual o percentual de cinturas normais

    com RCQ alterada. Mostro em Recife.

    Um abraço
    Alberto

    Ramos

  5. Alfredo Halpern Says:

    Reginaldo,
    Vejo o assunto de outra

    maneira.
    Estamos lutando há muitos anos para divulgar a importância da

    obesidade como doença e a caracterização da mesma

    através do IMC enfim se implantou na cabeça da maioria da nossa

    população. Eis que, numa interpretação a meu ver apressada

    de alguns estudos clínicos, algumas pessoas sugerem que se esqueça o

    IMC!
    Creio ser desnecessário salientar que realmente o excesso de gordura

    mais deletério concentra-se no abdômen e que a avaliação de

    gordura abdominal (e mais propriamente da gordura visceral) é – de um

    ponto de vista de risco cardiometabólico – mais importante que o

    IMC.
    Deve-se salientar no entanto que não conheço nenhum

    indivíduo com IMC superior a 30kg/m2 que não tenha as medidas da

    circunferência do abdômen superiores aos preconizados como de risco pelo

    IDF.
    Por outro lado, há muitos indivíduos com IMC inferior a 30kg/m2

    (e até inferior a 25kg/m2)que apresentam essas medidas “de risco”.
    Sendo

    assim, tentando ser pontual e prático eu diria que valorizem o IMC, sim, em

    indivíduos com valor acima de acima de 30kg/m2 mas não afastem o risco

    cardiometabólico em indivíduos com IMC inferior a 30kg/m2 (ou mesmo

    a 25kg/m2). Por outro lado, meçam a circunferência do abdômen dos seus

    pacientes.

    Alfredo Halpern

  6. prof. Bernardo Leo Says:

    De maneira alguma devemos abandonar o IMC como

    marcador de risco de DCV, como claramente indicado nos 2 excelentes trabalhos do

    NEJM, de 24 de agosto. Infelizmente não li a publicação do Lancet,

    mas do comentário feito no site da SBD, creio que houve um exagero do que

    escreveu um dos autores desta publicação.

    Quanto a procurar um

    novo índice para o excesso de gordura, sugiro que se leia a

    publicação do grupo do Reaven no American Journal of Clinical Nutrition

    83:47, 2006, em que se mostrou que a medida da cintura abdominal e o IMC identificam

    de maneira análoga (em uma população de 330 voluntários

    normais, 191 mulheres e 139 homens) os indivíduos resistentes à insulina

    que se sabe mostram um maior risco de moléstia cardiovascular, diabetes do tipo

    2 e hipertensão arterial.

    A correlação entre o IMC e a

    circunferência abdominal foi altamente significativa (r=0.78, p<0.001). Por outro

    lado, Desprès, no ultimo ADA, indicou que a cintura abdominal está associada

    com risco cardiovascular independentemente do IMC em homens. Viva-se com um

    barulho destes….

    Um abraço do Bernardo Léo

  7. Erich Lisboa Says:

    Quanto ao IMC como uma único marcador de

    obesidade, parece-nos um pouco limitado. Contudo, as outros parâmetros

    antropométricos disponíveis para avaliar a obesidade mostram-se

    semelhantes ao IMC. No entanto, quando associamos ao IMC a circunferência

    abdominal ou a RCQ temos um aumento do potencial diagnóstico com forte valor

    preditivo para as doenças cardiovasculares. Acredito que vale a pena a

    manutenção do IMC associado a outro parâmetro (RCQ ou

    circunferência) para definirmos obesidade e obesidade visceral, sendo esta

    última, mais importante e intimamente ligada aos riscos

    cardiometabólicos.

  8. Izidoro Says:

    Oi Reginaldo.

    Primeiramente parabéns

    pelo trabalho desenvolvido no site da SBD. Realmente está fabuloso.

    O

    assunto IMC e circunferência abdominal para diagnóstico predtivo de risco

    de comorbidades é realmente muito importante, uma vez que corremos o risco de

    ser simplistas demais e indicarmos riscos para pessoas que não os tenha.

    Porém, se tivermos uma metodologia prática para triagem

    populacional seria muito útil para a saúde pública.

    Talvez

    se tivéssemos um logoritmo que considerasse o IMC e a relação da

    circunferência do quadril e do abdome pudesse chegar a um resultado de triagem

    mais eficaz do que apenas uma das medidas.

    O que você pensa disto

    ?

  9. Rogério Oliveira Says:

    Caro Reginaldo

    Novamente venho lembrar que o

    bom clínico-endocrinologista examina o paciente como um todo, e determina

    não só o IMC mas também as outras medidas das cinturas e leva

    em consideração outros fatores de risco. Não vale uma só

    determinação, mas o conjunto de

    variáveis.

    Saudações

    diabéticas

    Rogério F. Oliveira

  10. Amelio de Godoy- Matos Says:

    Reginaldo

    Veja este artigo e o editorial. Mais lenha na fogueira

    da discussão do BMI como indicador de risco. A confusão é

    grande com os dados estatísticos. Nem bem saem dois artigos mostrando risco,

    vem este mostrando que a obesidade, avaliada por BMI, só tem risco quando

    obesidade severa. Mas, atente para o detalhe do grupo escolhido para a meta-

    análise: só os portadores de DAC. Além disso, o FU

    médio foi de 3.8 anos. O editorial sugere esquecermos o BMI, sem desprezar a

    obesidade. Como é isso? só valorizando a cintura e a RCQ. Bem, isto

    é o que vimos defendendo. Mas, não esqueçamos que em grandes

    obesos não há escapatória. O risco existe e neste caso do Lancet,

    mesmo num FU tão pequeno. Curiosos os resultados? Os magros têm mais

    risco!? Vale a pena dar uma olhada.

    Abs

    Amélio

  11. Amelio de Godoy- Matos Says:

    Reginaldo,

    No mesmo número do NEJM saiu outro

    artigo, com 1.213, 829 coreanos e FU de 12 anos! Este estudo mostra a curva

    típica em J para o BMI. Há ainda, no mesmo número o

    editorial.

    Se vc puder incluir o comentário seguinte eu

    agradeço:
    A morbidade e mortalidade derivadas do excesso de peso ou

    obesidade pode ser interpretada de duas formas: primeiro, aquelas consequentes

    ás alterações metabólicas, como aterosclerose e

    doença cardiovascular isquêmica. Nesse caso, o que ditaria o risco seria a

    gordura central, indiscutivelmente. A gordura periférica tem um papel protetor e

    isto foi demonstrado por alguns estudos, inclusive este do Yusuf ( Interheart). Lembrem,

    que o intrheart mostra risco de IAM e não de mortalidade. Entretanto, nem

    só de DCV morre o homem! Na obesidade universal, não central, os

    riscos são diferentes: doença vascular venosa, apnéia do sono,

    cânceres do aparelho genito-urinário, colecistopatia e eventual risco

    cirúrgico aumentado, entre outros. Até de acidente de automóvel

    o obeso morre mais. Isto tem a ver com IMC, que quanto maior pior. Refiram-se ao

    estudo coreano anexo. A mortalidade por qualquer causa mostra a curva típica,

    em J . Neste caso o risco por qualquer causa já aparece com IMC em torno de

    25 ( deve-se descontar o fato dos coreanos terem IMC menor por aspectos

    étnicos, mas a mensagem é a mesma). Logo, creio que devemos

    combater qualquer obesidade, mas certamente a avaliação da

    “centralização” de gordura é mais importante, já que

    até os magros com RCQ elevada têm maior risco

    cardiometabólico.

    Amélio

  12. Dr Reginaldo Says:

    Caro Dr.,
    Diante de tantas citações

    sobre IMC, RCQ, fica a seguinte dúvida porque nao utilizar dobras cutaneas,

    uma vez que apresenta resultados muito mais seguros sobre a composiçao

    corporal/riscos cardiovasculares?
    Um abraço, Andréa (Ed.

    Físico)

  13. FERNANDA ABREU Says:

    Por favor a tabela da OMS que classifica IMC com comorbidades, está correta quando diz que IMC 25 -29,9 (sobrepeso) está aumentado o risco de comorbidades e, quando IMC 30 -34,9 (OB I) o risco é moderado ?

  14. FERNANDA ABREU Says:

    aguardo resposta

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